É com os olhos marejados de lágrimas que escrevo esta postagem, pois presenciei uma cena que partiu meu coração. Eu parei com o carro no semáforo da esquina do Banco Real com a Avenida Centenário, aqui de Criciúma, em noite chuvosa e com o tempo esfriando. Fiquei ali tranquilamente ouvindo música aguardando o sinal abrir para poder arrancar. Quando o semáforo abre e eu saio com o carro, olho para minha esquerda e vejo uma senhora que aparenta uns 70 anos de idade, dormindo na escadaria do Banco.
Sabe o que ela estava fazendo ali? Vendendo amendoins e torradinhas para complementar o salário do aposento. Ela não aguentou a jornada do dia e dormiu apoiada na caixa de isopor que carrega as torradinhas. Essa cena partiu meu coração até agora e eu cheguei em casa com os olhos cheios da água. Minha vontade era de dar meia volta, comprar torradinhas com alguns trocados que eu tinha e dar carona para ela até em casa. Só que tinha muitos carros atrás de mim e voltar iria exigir um grande teste de paciência até achar o retorno.
Não importa. Agora eu choro pelo estado que vi aquela senhora tão simpática que sempre oferece essas guloseimas nas esquinas
(já comprei dela), e arrependido por não ter voltado. Isso não é vida, gente. Precisamos de saúde para viver, mas ninguém merece envelhecer precisando trabalhar de qualquer coisa - por não ter qualificação - para complementar o salário mínimo da aposentadoria. Que país é esse onde assassinos confessos são libertos, deputados reclamam por ganhar "só" R$ 26 mil
(fora os benefícios), enquanto a população de Bem sofre com salários baixos e impostos altos?
Vocês precisavam ter visto a cena daquela senhora dormindo na escada apoiada nas torradinhas, nessa véspera de feriado com chuva. Nós que temos uma casa confortável para morar, um trabalho que não paga o que a gente gostaria, mas supre nossas necessidades básicas, sempre reclamamos de boca cheia. É nessas horas que passamos a dar valor ao que realmente importa. Enquanto uns reclamam que o preço de tal show está caro, que falta roupa de marcas no guarda-roupa e que o carro já não é mais do último modelo, outros estão nas esquinas trabalhando honestamente só para pagar luz, água, aluguel e ter o que comer.
No mesmo dia que completamos 15 anos de ausência do poeta da música brasileira,
Renato Russo, eu senti um pouco a profundidade da letra "
Há Tempos" composta por ele.
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção...